O unboxing de hoje veio direto do fundo do mar. E, meus queridos, ele trará muito mais do que conchas e peixinhos a nadar.
Após 34 anos, a Disney apresenta “A Pequena Sereia” em formato de live-action, trazendo com ele a atriz Halle Bailey como protagonista e… bastante polêmica.
O filme em desenho animado fez parte da nossa infância e talvez da sua também. Por isso, estamos ansiosas por esta nova versão. E com este oceano de polêmicas que ele vem trazendo, queremos mergulhar em uma delas aqui: a importância da representatividade negra no cinema.

A Pequena Sereia: a história de Ariel
Aqueles que nasceram nos anos 90, possivelmente, tiveram suas infâncias marcadas pela trilha sonora e História da Bela Ariel.
A animação “A Pequena Sereia”, produzida pela Disney e lançada em 1989, traz a História da Sereia Ariel, filha do Tritão, Rei dos mares. Ariel é uma figura de pele clara, com seus cabelos longos, vermelhos e flutuantes, cauda esverdeada e uma voz encantadora.
A pequena sereia se apaixona por um Príncipe humano, e para subir à terra, fez um acordo com uma bruxa. Em troca de pernas, a bruxa poderia ficar com sua voz, e se em três dias não conseguisse o amor do príncipe, voltaria a ser uma sereia.
(Quem já assistiu, sabe o desfecho da história. Mas para quem não assistiu, não vamos tirar da caixa mais spoilers.)
A live-action (2023)
Transformar animação em live-action (representação cinematográfica através de atores reais) já vem acontecendo com algumas obras, como:
- Alice no País das Maravilhas (2010);
- A Dama e o Vagabundo (2019);
- Pinóquio (2022);
- Peter Pan (2023).
Em 2023 a Disney traz também “A Pequena Sereia” em live-action. E, apesar de contar a mesma história, esta versão (ainda nem lançada) já vem fazendo muito barulho e causando muita polêmica.
A polêmica Ariel Negra
O fato de a atriz e cantora negra Halle Bailey (23 anos), ter sido escolhida para ser a Pequena Sereia, gerou uma onda de dislikes e comentários agressivos, já que a personagem original tem pele clara.
Mas, se sereias reais não existem. Por que cobrar um tipo físico para um personagem animado?!
Se a atriz é talentosa o suficiente para assumir o papel e interpretar a trilha sonora, o que causa tamanha insatisfação?
Motivo: contamos, muito pouco, com o protagonismo negro, e quando isso acontece, parece sempre incomodar profundamente.
Racismo no cinema
Nos Estados Unidos, no Século XIX, nos teatros, minstrel shows e filmes, era comum que pessoas brancas pintassem seus rostos para interpretar, de forma negativa, as pessoas negras, ridicularizando e menosprezando-as.
Esta prática, chamada de Blackface, se perpetuou por muitos anos, e só contribuiu para a ampliação do preconceito e do racismo.
O Whitewashing, é outra prática de escalar atrizes e atores brancos – no cinema, na tv e no teatro – para interpretar personagens de diferentes características étnicas e raciais.
Exemplos de Whitewashing no cinema:
- O Preço da Coragem (2007): Angelina Jolie, atriz branca no papel de uma mestiça de origem cubana;
- Aloha (2015): Emma Stone, Norte Americana, branca e loira, foi escalada para fazer a personagem Allison Ng, que no filme é descendente de havaianos e chineses;
- Gods of Egypt (2016): atores brancos interpretam Deuses egípcios;
- Ghost in the Shell (2017): a atriz Scarlett Johansson interpretando uma personagem japonesa.
Neste contexto, a escalação de atores brancos acaba desconsiderando uma representação autêntica e mais precisa da diversidade étnica e cultural.
O Whitewashing mantém o protagonismo branco nas telas e no teatro; desvaloriza outras culturas; impulsiona o racismo; e tira oportunidade de outros atores e atrizes de diferentes etnias de ocuparem lugares de destaque na mídia.
Podemos fazer o caminho inverso?
Sim. Já podemos ver aos poucos, a escalação de negros para papéis de protagonistas. Inclusive, alguns negros sendo escalados para atuarem refazendo personagens que antes já tinham sido interpretadas por atrizes e atores brancos.
São exemplos recentes desta troca:
- Zoë Kravitz: no papel de Selina Kyle (2022), personagem marcante de Michelle Pfiffer no filme “Batman: O Retorno” (1992);
- Yara Shahidi: a fada Sininho no filme “Peter Pan e Wendy” (2023).
O curioso é que, nestes casos, não houve tanta revolta. Talvez, por não se tratarem de protagonistas.
Representatividade negra: por que é importante destaques negros no cinema?
Existem vários motivos para Negros ocupem papéis de destaque, listamos alguns:
- Trazer a diversidade étnica e racial para a indústria do entretenimento, ajuda a quebrar estereótipos racistas e a hegemonia da cultura branca.
- Quando uma atriz negra é colocada em destaque, inspira outras mulheres, empoderando-as e encorajando-as a seguir seus objetivos, como também ocupar diversos lugares sociais.
- Ao se depararem com uma Princesa negra, ou Heróis negros, crianças negras se identificam e se sentem valorizadas, é o que chamamos de representatividade.
Torcemos que a escalação da Halle Bailey (e outros) tenha uma preocupação genuína com uma reparação de uma dívida social, e não apenas uma estratégia de marketing para chamar atenção.
Afinal, a Pequena Sereia ser negra não deveria gerar mais revolta do que a violência da exclusão e do racismo, não é mesmo?!